A sensação que temos quando o novo filme de Pedro Almodovar começa, é que estamos entrando num território exótico e desconhecido. Reconhecido por fazer filmes de forma kitsch, o diretor espanhol usa desta vez suas peculiaridades de forma sútil que, para contar uma obra de terror, transforma A Pele Que Habito numa verdadeira experiência cinematográfica. Um filme instigante, provocativo, que apesar de estar tratando um assunto extremamente violento, consegue se demonstrar como um filme exótico, peculiar, e altamente interessante.

Imaginar A Pele Que Habito sendo feito nos anos 50 ou anos 30 é uma tarefa extremamente fácil devido a maneira como o diretor escolhe mostrar seu filme – uma obra que apesar de ter sua personalidade às avessas, consegue se preocupar mais em usar uma mise en scene voltada para as cores e formas de maneiras sutis e equilibradas em frente a câmera. Aliais, A Pele Que Habito é um filme extremamente complexo em questão de cores e formas. Uma direção de arte altamente pensada que dá contrastes fortes no meio de um cenário totalmente pensado e bem elaborado em relação a história que se conta.
O que fica interessante no filme é que as cores mais inapropriadas para um filme de terror dão vida a uma história tenebrosa e chocante, fazendo do filme uma obra extremamente instigante. E o que seria isso? Um Frankenstein e um Médico e o Monstro moderno e colorido. Uma história de um cirurgião plástico que deseja se vingar dos homens que violentaram sua filha. Mas o filme vai além disso. É uma busca de identidade, tanto interna quanto externa. A pele mostra ser o que somos, e ao mesmo tempo, esconde os nossos mais sombrios segredos. E a forma como isso é criada no novo filme de Almodovar acontece numa fórmula extremamente interessante e chocante, fazendo da experiência do filme uma experiência única, que junto com as cores e formas do filme, fazem de A Pele Que Habito um filme que transcende questões como o cinema pela arte e o cinema pelo entretenimento – este é nada mais nada a menos que a experiência cinematográfica em seu auge.

O mais interessante de tudo, ainda, é a reação do público em relação ao novo filme de Almodovar. Apesar de ser um filme de fato chocante e para alguns, desconfortável, é uma experiência onde, como eu disse, muito mais cinematográfica do que narrativa. Pode ser chocante ver o que se esconde por trás das peles dos personagens do filme, mas o fetiche criado na elaboração da cena em sí e sua forma fílmica, fazem de A Pele Que Habito um filme impossível de tirar os olhos da tela. E não há nenhuma inovação técnica criada por Almodovar. É o filme pelo filme, a forma pela história. Uma conexão criada da tela para o expectador com os mais requisitados cuidados, que não pede atenção ou bagagem intelectual de quem assiste. É um filme para ser visto e apreciado. Aqueles que saem da sala ou acham o filme uma obra estranha, não poderiam ser permitidos a entrar no cinema para ver qualquer filme. Não é uma questão de revolta cinéfilia, mas simplesmente a desilusão do que essas pessoas tem sobre o cinema. E A Pele Que Habito é puro cinema. É de se entender que tenham certas reações com filmes como Árvore da Vida, mas deixar esse filme para trás para elogiar obras sem muito poder como Drive, é simplesmente inexplicável.
A Pele Que Habito é por fim, o cinema pelo cinema, a arte pela arte, a experiência cinematográfica em sí. Não se assiste filmes para se divertir ou pensar, apenas para apreciar. E A Pele Que Habito transcende todas essas questões. Ainda que tenha deixado um pouco a desejar nos seus últimos cinco minutos, não se pode parar de pensar a obra inteira completa. É sem dúvida, um dos melhores – se não o melhor, filme do ano.
1 comentários:
É aquele tipo de filme que você fica pensando: não é isso, não é isso, não é isso... PUTAQUEPARIU é isso!
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