Tempo é dinheiro é o dilema inspirado para o novo filme de Andrew Niccol, O Preço do Amanhã; uma mistura de ficção ciêntifica e thriller que se passa num mundo futurista onde as pessoas param de envelhecer com 25 anos de idade e começam a passar a ter um certo tempo restante de vida. Esse tempo, porém, depende de sua classe social. Quanto mais rico se for, mais tempo se tem e quanto mais pobre é, mais difícil é de se conseguir tempo. E tudo isso acontece devido ao capitalismo que é controlado pelo tempo. Em vez de dinheiro, se usa o tempo. Quanto mais tempo se tem, mais você vive.

A promissa para o filme é algo altamente interessante e levanta questões morais e críticas ao sistema capitalista. Quando foca na trama principal, onde um sujeito pobre literalmente ganha um século de tempo, a história ganha personalidade quando homens começam a ir atrás dele para pegar esse tempo e ele sequestra a filha de um homem poderoso para usar ela de refém para conseguir sobreviver. Infelizmente, o roteiro segue com diversas falhas e uma conclusão totalmente moralista em relação ao desfecho que propõe, sendo este, extremamente anarquista, fazendo de O Preço de Amanhã um filme um tanto delicado, mas ao mesmo tempo, muito peculiar.
Com aproximadamente quarenta primeiros minutos geniais, O Preço de Amanha nos mostra uma história onde a diferença das classes sociais são extremas devido ao tempo que se gasta e ganha. Os pobres, por exemplo, com apenas alguns dias em seus relógios, vão ganhando muito pouco e vão sobrevivendo enquanto podem. Já os ricos, ganham muito e gastam muito mais. Como uma cerveja num bar no bairro dos pobres que custa "trinta minutos" e no bairro dos ricos custa "dois dias". Essa diferença drástica são uma grande crítica ao sistema capitalisa, principalmente quando eles se dividem em cidades, que no filme, são chamados de "Fusos Horários". Resumindo, quem tem mais dinheiro é quem vive mais.

Logo, o filme abre diversas questões sociais interessantes, como os "Homens do Minuto", que são policias do tempo que tentam controlar os "ladrões de tempo". Afinal, tempo é precioso, logo, muito tempo que é dado para alguém sem justificativa pode ser perigoso. Eles são como os controladores da bolsa de valores, só que do tempo. Há também os hábitos sociais entre os pobres e os ricos, onde os pobres fazem tudo com muita pressa e "vivem" mais por terem uma vida mais emocionante e com mais coisas a perder - sentimento que a refém de Justin Timberlake possui em relação aos pobres já que ela pertence ao fuso horário dos ricos, que fazem tudo devagar pois eles tem muito tempo a perder. E é ai que entra a história de Will Salas, interpretado por Justin Timberlake, que após ajudar um cara com um século de tempo fugir de ladrões, ele ganha esse tempo do cara, e logo, os Homens Minuto começam a ir atrás dele. E é ai que ele foge para uma outra cidade, que é a cidade dos ricos, onde todos tem mais de cem anos de tempo e sequestra a filha de um poderoso homem para usar de refém - lembrando que quando eu digo rico eu quero dizer que tem muito tempo.
Tudo até ai havia dado um ótimo filme, até o roteiro querer envolver algo que está além da promissa central de sua história. Sendo um filme sobre um cara que sequestra uma garota para fugir de caras que estão atrás dele por ele ter ganhado muito tempo de vida, o filme tenta virar uma espécie de Bonny e Clyde que se perde ao tentar resolver o problema social dos pobres em vez de tentar resolver o problema dos personagens. Se o filme simplesmente continuasse num estilo Bonnye e Clyde, onde o rapaz e a menina se apaixonam e começam a uma luta de sobrevivência, não duvido que o filme seria ótimo. Infelizmente, eles tentam resolver a questão "capitalista" do tempo ao acabar com os ricos e dar mais tempo aos pobres para sobreviver, pois não é justo milhares de pessoas morrerem para um homem ser imortal. Não que isso seja certo, mas a "solução" que o filme propõe é extremamente anarquista quando os heróis do filme são na verdade bandidos que assaltam bancos para roubar e distribuir o tempo para os pobres. Ou seja, puro caos. Sem contar que os problemas de Will Salas não se resolvem, eles simplesmente continuam, porém, com um objetivo de ajudar outras pessoas.

Por outro lado, há muitas coisas boas que se podem tirar do filme. Primeiramente, o primeiro terço do filme é genial e revela todos os lados positivos que eu disse anteriormente. Segundo, o filme é extremamente bem feito, tanto na direção quanto na fotografia e o figurino. Ao fazerem um mundo futurista controlado por um capitalismo onde o dinheiro é tempo, O Preço de Amanhã lembra um Alphaville do Godard em relação a direção de arte. Amanda Seyfried, também, nunca apareceu tão linda num filme - e coincidentemente, falando de Alphaville, ela está o clone de Ana Karina, atriz muito usada por Godard nos anos 60. Sem contar os atores, que é formado por um elenco extremamente bonito e elegante.
No fim, O Preço de Amanhã é um filme muito interessante, porém, altamente radicalista em pontos negativos, tornando assim, uma obra razoável. Facilmente seria dita como lixo, mas a complexidade de sua obra, por mais defeituosa que seja em certos pontos, é ao mesmo tempo, muito criativa e muito ousada. O que realmente pecou é seu desfecho, que é tão crítico quanto a proposta do inicial do filme. De um jeito ou de outro, o tempo que se gasta vendo O Preço de Amanhã é no mínimo interessante. Se você está disposto a gastar esse tempo, a escolha é sua.
1 comentários:
Eu gostei e me diverti bastante com esse filme, mas a sensação, ao final, foi a de que uma ideia genial foi desperdiçada. Havia tantos aspectos interessantes para explorar e, no final das contas, todo aquele mundo utópico (negativamente utópico) acabou sendo negligenciado pelo roteirista e diretor.
Espero que façam um remake mais profundo e menos blockbuster.
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