Está ficando cada vez mais difícil falar sobre as obras de Lars Von Trier. Não que ultimamente tenha sido uma tarefa fácil, mas após assistir Melancolia, precisei de todo o tempo dos créditos para saber o que eu achava do filme, e ainda fiquei pensando sobre ele durante todo o caminho de volta para casa. Não há como dizer se este é melhor ou pior que outros trabalhos de Von Trier. Suas obras são tão singulares que não há como colocar mais créditos em uma e menos em outras, pois cada uma são especiais do jeito que são. Vou admitir que Melancolia é um tanto longo e seu propósito fique um pouco no ar, mas isso não quer dizer que seja um filme incrível. Veja a seguir o que o Arte à Sétima tem a dizer sobre o filme:

Não há como assistir Melancolia e esquecer o fato de que o diretor passou por uma terrível depressão nos últimos anos. Aliais, seus trabalhos anteriores, como Anticristo, vieram dessa experiência, fazendo com que ele se intitulasse como o melhor diretor do mundo e que havia sido escolhido pelas mãos de Deus para fazer aquele filme e que não explicaria para ninguém que não tivesse entendido pois havia feito o filme para sí mesmo. Tudo bem que este ano ele foi expulso de Cannes por dizer comentários que levavam a entender que ele apoiava o nazismo, mas isso não é relevante. O fato é que Melancolia é um filme onde a própria depressão toma formas. E isso funciona de maneira tão intrigante, que o pretexto usado para representá-la chega a ser lindo. E o que seria isso? Um planeta chamado Melancolia colidindo com a Terra e destruindo tudo. Assim como a depressão, que tira toda a felicidade e vida de um ser humano. Mas vamos com calma.
Apesar desta ser a trama da história, é a perspectiva de duas irmãs sobre tal evento que o filme se move. Estas são Justine e Claire, que são apresentadas através de duas partes do filme após um belo e longo prólogo parecido com o de Anticristo. A primeira parte é sobre Justine e seu casamento. O episódio na verdade lembra muito o primeiro filme de Dogma 95 (movimento onde Von Trier foi um dos fundadores), Festa de Família, onde as coisas não acabam sendo tão bonitas quanto eram para ser. O propósito, porém, vem das atitudes da própria noiva, Justine. Ela parece totalmente infeliz, e chega a sair do salão para fazer outras coisas que em determinados momentos chegam até irritar, como dormir, arrumar uma sala que não está sendo usada ou até mesmo tomar banho! Suas atitudes vão ficando cada vez mais estranhas, nos levando a entender através de outros diálogos com os personagens, de que já havia algo errado com ela, mesmo antes do casamento. Afinal, ela não estava batendo tão bem da cabeça que sua irmã teve que arrancar o buquê de sua mão para jogar para o público, pois nem isso ela conseguia fazer. Apesar da longuíssima sequência ser um tanto monótana em algumas partes, a festa é cheia de personagens engraçados e interessantes, com um incrível elenco formado por Kiefer Sutherland, Charlotte Rampling, John Hurt, Alexander Skarsgård, Stellan Skarsgård e Brady Corbet.

A segunda parte é sobre sua irmã, Claire. Esta está apavorada pelo fato de que um planeta chamado Melancolia passará perto de Terra, mesmo com os cientistas dizendo que eles não se colidirão. Enquanto isso, ela fica cuidando de sua irmã, Justine, que está tão mal que nem consegue andar direito. A segunda parte até parece ficar um pouco distante da primeira, pelo fato de estar totalmente ligada ao planeta Melancolia chegando a Terra, enquanto acompanhamos Justine tendo acessos de loucura como indo literalmente tomar um banho de lua durante a noite, ou não conseguir comer por achar que tudo está com gosto de cinzas. A chegada do planeta na Terra, porém, possui um incrível terror psicológico envolvido. As situações proporcionadas são de extrema aflição e o pessimismo de Justine não ajudam em nada ao dizer que a Terra é má e que ela merece morrer. As mudanças repentinas do clima, a ótima atuação de Charlotte Gainsbourg, e a câmera da mão de Von Trier nos fazem realmente se colar naquele lugar, percebendo que não há escapatória, pois o mundo acabará. A cena final, então, é maravilhosa, apesar de causar um certo pânico.
O propósito do filme, porém, fica um pouco no ar quando os créditos se começam. Afinal, o que vimos foi um filme sobre o fim do mundo ou um filme sobre depressão? Tecnicamente falando, os dois pretextos são mal desenvolvidos. Justine, que está depressiva, não é um personagem bem desenvolvido, e a suposta metáfora que liga sua tristeza ao planeta chamado Melancolia que está prestes a destruir tudo, não é muito clara. Ela parece idolatrar o planeta ao se banhar nua de sua luz, mas ao mesmo tempo, não se importa pelo fato dele destruir a terra. Como eu disse, ela mesma cita que a Terra é má, e que ela merece morrer e que não há vida mais em nenhum lugar. Por outro lado, Claire mostra o lado mais humano da coisa com seu desespero e sua dor por perder seu marido, seu filho e sua vida perfeita. Estes sentimentos são muito mais reais no filme e conseguem dar vida a todo o terror psicológico, mas ainda sim fica um pouco confuso pela quantidade de destaque da depressão de Justine na história. Afinal, tem metáfora mais forte no filme do que o nome do planeta se chamar Melancolia? A conexão entre eles, porém, parece um mistério. Von Trier sempre escondeu bem suas metáforas através de simbolismos muito bem criados, que funcionam de maneira perfeita em Anticristo, mas em Melancolia, parecem passar despercebidos ou mal feitos.

Mas como estamos falando de Von Trier, as coisas nunca são tão simples. Se fomos analisar as duas partes do filme, nos damos de cara com duas contradições que se unem pelo fato do planeta estar colidindo com a terra. Uma é Justine, que está depressiva e não se importa com a destruição da vida. Esta abraça a depressão e o pessimismo e vê que não há nada a se desesperar. Já, Claire, é otimista, e tem sua familia e sua vida perfeita a perder caso o mundo acabe. E mesmo que o mundo acabe, ela ainda é otimista em acreditar numa vida em outro lugar, apesar dela não poder fazer nada já que o mundo acabará de um jeito ou de outro. E como isso acontece? Com o impacto de Melancolia. Se vissemos esse pretexto com a metáfora que surge pelo fato do planeta se chamar Melancolia, percebemos que Von Trier está nada mais nada menos que fazendo uma visão pessimista sobre a vida através da depressão. A vida pode ser bonita, pode ser feia, mas quando se trata da depressão em sí, não importa. Todos nós seremos atingidos e morerremos. E é isso o que de fato acontece no filme, nos resultando a última cena maravilhosa do filme. Por isso que eu digo que não há como assistir Melancolia sem lembrar de que o diretor passou por uma terrível depressão. Este filme é nada mais nada a menos sobre isto, apesar dele deixar este tipo de pretexto bem no ar.
Se é um filme provocante, pode-se dizer que sim. A maneira como ele moldou a depressão para servir de tema em seu filme é de fato algo criativo e de se admirar. Porém, se o filme poderia ser melhor, eu diria que sim. Mas sendo um filme sobre depressão e o estado emocional de Von Trier estar totalmente envolvido nele, fica um tanto difícil julgar. Então finalizo minha crítica dizendo que o filme não superou minhas espectativas. E isso pelo fato de que o modo que Von Trier usou para moldar sua depressão, ficou sem conexão em muitos momentos e seu simbolismo não foi tão forte.

O filme, por outro lado, é impecável. O prólogo no começo do filme são imagens hipnotizantes em câmera lenta que mostram o fim do mundo de maneira bela e intrigante, junto com uma trilha sonora arrepiadora e uma direção de arte maravilhosa. A fotografia do filme é bela, e a câmera de mão de Von Trier sempre mostrando a cara dos atores bem de perto (algo que eu gosto muito, por sinal) nos transportam para dentro do filme de uma maneira mágica. Os atores, então, nem preciso comentar. Além do elenco incrível que comentei, Kirsten Dunst aparece como um dos seus papeis mais diferenciados, e Charlotte Gainsbourg está incrível como sempre. Se tem uma coisa que Von Trier consegue fazer, é puxar o melhor de seus protagonistas, tendo estes, sempre ganhado o prêmio de Melhor Atriz, mesmo que elas acabem xingando o diretor depois como Bjork e Nicole Kidman.
No fim, Melancolia acaba sendo mais um filme provocante de Von Trier. Devo admitir que gostei mais de Anticristo, ou até mesmo outros trabalhos como Dançando no Escuro; mas como eu disse, não há como comparara o mesmo tempo. Os filmes de Von Trier são únicos com qualidades específicas. Apesar dele ter falhado em alguns aspectos em Melancolia, seu conceito e a maneira que ele aborda o tema neste filme são únicos, e por mais que não tenha sido tão bem representado, são caracteristicas que se merecem respeito.
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